Porque eu mudei de ideia.

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Eu sempre trabalhei com moda, nada de muito glamour, mas de onde eu vim uma grande conquista. Não que eu tenha  vindo  de um  buraco imundo sem dignidade, pelo contrário mas sou de origem humilde.

Na minha família até a minha geração, oportunidades não eram tangíveis, todos lutaram muito. Mais uma família Souza neste imenso Brasil e se seus membros pudessem escrever um capítulo ao menos acerca de suas vidas daria um best seller.

Minha mãe investiu cada gota da sua saúde para que minha irmã e eu vivêssemos com dignidade, sem saber o que é ser discriminada, quase sempre poder o que queria e vivermos como classe média baixa mesmo sendo pobres. Minha irmã viveu tempos mais difíceis que eu e talvez possa ter outra visão da construção da nossa família. Tudo isso devido ao potencial e polivalência de minha mãe que feito alquimista transformava trabalho em oportunidades. Sua determinação e postura fizeram com que ela conseguisse se esquivar dos patrões desprezíveis e se manter em empregos decentes que valorizavam o seu passe.

Dando sentido ao incio do texto, quando fiz catorze anos minha ambição era latente e passei a importunar mamis para me conseguir um emprego: mais um problema, mais uma solução.

Na alquimia de oportunidades ela me conseguiu um emprego de modelo em uma confecção. Foi incrível, foi glamouroso, foi difícil não encher a boca para dizer o que eu fazia enquanto minhas amigas faziam o que um menor aprendiz hoje faz, o que não é ruim porém não tem glamour (eu estou falando agora do glamour hahaha). Fui modelo, passei para setor financeiro e enfim cheguei as vendas ( mais aclamado do que ser modelo, pela remuneração).

Tudo isso aconteceu sem eu sequer tomar conhecimento de como estava a economia, de saber quem era o ministro da fazenda, tão pouco qual era a situação do PIB brasileiro. Porque mais uma vez a alma deste texto, minha mãe, me ensinou que trabalhando eu vou aonde eu quiser. Ela não tinha tempo de ler jornais e se preocupar com as alianças firmadas pelo país, era muito trabalho para míseras 24 horas. (tenho um amigo que chama isso de discurso de patrão)

Eu ingressei na faculdade várias vezes mas nunca finalizei uma delas, parece que eu ia lá só para prospectar pessoas interessantes para minha vida, nesta indas e vindas eu comecei a me inteirar do mundo para não ficar de fora das discussões. Então eu aprendi a decidir em quem votar, porque eu supus  que se conciliasse muito trabalho com um país economicamente resolvido eu ia sair no lucro e poderia até trabalhar menos. Foi a sacada, investimento de voto!

Chegamos no ponto onde eu dou sentido ao título. Depois de muito tentar o PT entrou no poder e nós fomos a forra. Lá em casa não tem TV de led ou lcd porque meu namorado é retrô mas eu fiquei bonita economicamente relativamente ao que era antes, eu floreei tanto nos primeiros parágrafos que você já havia pensado que eu enriqueci. Naaaão! Não me endenta mal caro leitor. Rolou de comprar bolsas, sapatos e roupas, fiquei nos trinques! Consegui crédito (apesar de não achar tanta vantagem hoje em dia), movimentei a conta no banco, ingressei na faculdade várias vezes, comprei shampoo bacana, livros no quilo, viajei de avião, minha irmã foi pra Nova Iorque (o auge do glamour! haha). Adoro quando elogiam meu perfume, digo que é de um estilista japonês mas o parfum é francês e quanto mais desentendida é a cara do interlocutor mais acho chic meu Issey Miyake (soberba é meu nome do meio hahaha coisa de emergente!) ontem mesmo comi salmão. Ah! essa vida tá boa demais! Dissertando aqui parece ainda mais glamourosa.

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Foco! Sem divagar. Oito anos de PT foram uma dicotomia entre progresso e escândalos. Esses anos acabaram e “o cara” de acordo com Obama não podia mais ser reeleito. Mas estava na hora de ser representada por uma mulher, porque quando a mulher está no poder as coisas andam (vide relacionamentos rsrs)  achei que a gata ia se jogar no poder e fazer esse país sambar no mercado com bijou da china, comendo caviar russo e exibindo um PIB turbinado. Mas não rolou. (gastei no eufemismo agora). A dona ficou quatros anos parada, talvez em choque com sua eleição, e eu senti o baque no bolso. A moda ficou ainda mais cruel e descobrimos que não dá para concorrer com a China. Eu já não sou mais favorecida pelos projetos do governo, sim porque eu mamei nas tetas do governo quase que literalmente com o vale leite do Sarney , meu pai também ,diga-se de passagem que trocava os tickets por cachaça mas ele se regenerou rsrs (entenda melhor aqui:  http://blogdamilly.com/2014/10/06/o-corrupto-sou-eu/) parei por ai, bolsa pra mim agora tem que ser de couro. Entendido que a economia não favorecia a classe que gera minhas comissões, “a alta classe”, eu pensei ter compreendido que estava na hora de mudar (ai entra aquele earworms musical do horário eleitoral).

Foi quando fiz uma declaração um tanto quanto incoerente no facebook e os meus amigos e conhecidos petralhas ficaram indignados ao passo que os outros coxinhas (tá certo  isso?) aplaudiram minha decisão. Eu já estava decidida e as repostas eram agressivas, as redes sociais ficaram insuportáveis, primeiro meus amigos petista estavam gastando mesmo o latim, depois o outro lado começou a se revelar e então começou a segregação. Pobre e classe média generosa X Quase ricos e os beneficiados pelos ricos e quase ricos (é ai que eu me encaixo). Mas interessante é que quase ninguém pergunta porque só coloca o dedo na cara. E quando a pergunta é feita não vejo muito embasamento nas respostas dos eleitores ao candidato do PSDB. Minha decisão começou a se enfraquecer. Comecei a percebe que as pessoas sensatas que eu conheço nem vão voltar, elas não quiseram participar desta bandalheira que está acontecendo.Se a politica está suja no pleito quiça quando qualquer um deles for eleito.

Divaguei de novo, voltemos ao sentido do título. Um dos meus conhecidos do face postou um blog interessante e eu gostei da visão da escritora do mesmo, petista mas imparcial. Isto me deu vontade de pesquisar mais, de ler além que as chamadas dos jornais e atualizações de timeline. Obtive outra perspectiva e percebi que minha decisão era egoísta. O atual governo fez muita palhaçada mas trouxe progresso, trouxe acessibilidade para quem não tinha. Minha mãe foi uma beneficiada com a aprovação de poucos direitos trabalhistas para empregada doméstica, melhor do que nada.  Vi pessoas gratas por sair do mapa da fome, pessoas que voltarão de onde vieram se houver cortes.

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Minha irmã e eu estabelecemos um ranking  e para minha surpresa o PT ganhou de lavada. Eu, Lidiane, pessoa física quero votar no PSDB porque as vendas vão aumentar os empreendedores ficarão otimista. Mas eu, Lidiane, só pessoa se sensibilizou com a situação de vida de outras pessoas, evidentemente muita gente ainda passa fome mas oque não pode é que elas voltem a ficar com fome e não tenham dignidade. Assisti a um vídeo do ano de 2001 com os olhos rasos d’água (gastei de novo rs),  não se referia a partido nenhum, uma reportagem do jornal nacional onde as pessoas além de estarem famintas, convivendo com a crescente mortalidade infantil se sentiam envergonhadas em dizer que naquele dia não haveria comida. Isto já não é uma constância nos telejornais.

Ainda assim fiquei dividida, apaguei minhas postagens referente a politica da minha timeline e me senti envergonhada por participar dessa torcida desconceituada. Debates horrendos, piores que zorra total.

Nos últimos dias, na reta final, tenho escutado comentários vindos do lado dos quase ricos, gente que desceu da zona sul para ir no comício no centro da cidade dizer que temia ser agredido porque estava naquela região,como se as pessoas que frequentam a região central fossem trogloditas; na reunião de condomínio alguém disse que o governo tinha que mudar porque as prestações de serviços que não exigem graduação estavam muito caras, como se fosse obrigatório lavar privada, pintar parede dentre outras funções por preço de banana, gente balbunciando sobre bolivarianismo neste governo uma vez que a maioria deles sequer sabem dos ideais de Simón Bolívar. Ouvi muita coisa que renderia outra postagem, visto que esta já esta grande demais. E coincidentemente estou lendo um livro de Henry D. Thoreu, Walden, publicado em 1854 porém pode ser adaptado a contemporaneidade. Segue um trecho :

” (…) O luxo de uma classe é contrabalançado pela indigência de outra.De um lado está o palácio, do outro os asilos para mendigos. Os numerosíssimos operários que construíram as pirâmides, destinadas a túmulos dos faraós, foram alimentados com alho, e é bem provável que não tenham sido devidamente  enterrados. O pedreiro que termina a cornija do palácio, à noite talvez regresse a uma choça inferior a cabanas dos índios. É um erro supor que, num país onde o usual evidências da civilização existe, a condição de um corpo muito grande dos habitantes não pode ser tão degradada como a de selvagens. Eu me refiro aos pobres degradados, não agora aos ricos degradados.Para saber isso, não preciso de olhar mais longe, basta contemplar os barracos por toda parte bordejam as estradas de ferro,o mais recente progresso da civilização; onde em  minhas caminhadas diárias vejo seres humanos vivendo em chiqueiros, e durante todo o inverno com uma porta aberta por falta da luz,e deixando entrever a ausência de uma pilha de lenha para queimar, e as formas contraídas dos velhos e dos jovens pelo longo hábito de encolher do frio e da miséria, e cujo desenvolvimento de todos os seus membros e faculdades vê-se bloqueado. É mais justo dar-se atenção a essa classe cujo trabalho contribuiu para as obras que distinguem esta geração.”

O fato é que mudei de ideia porque eu não vou ser conivente com as pessoas que pensam que emergente é uma degeneração da sociedade. Pessoas que não querem que o trabalhador coma salmão, use o mesmo perfume, viaje ao seu lado no avião e cobre mais de R$100,00 pra limpar a bagunça nojenta de suas casas. Estas pessoas não querem mudar, a mudança já foi feita, querem fazer cortes, estagnar mais do que está estagnado. Voltam da Europa encantados e falam hipocritamente da igualdade social, da educação das pessoas e falam de como são belos e bem vestidos ” aquilo é outro mundo”, “quem me dera morar num pais assim” e não apoiam o mínimo de ascensão da população miserável.

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Não sou Dilma, detesto sua gestão e sua postura.

Não sou Aécio, detesto sua repressão e sua gestão.

Nem de direita, nem de esquerda principalmente neste país onde os partidos passam do 69 para papai e mamãe num piscar de olhos.

Existem considerações a fazer: nem todo PSDBista é um panaca e nem todo PTista é trabalhador.

Porém não vou ficar em cima do muro e considerando este blábláblá sem fim já sabem da minha posição.

“O nosso eu é edificado pela superposição de estados sucessivos. Mas essa superposição não é imutável, como a estratificação de uma montanha. Levantamentos contínuos fazem aflorar à superfície camadas antigas.”

-Proust

 

E digo mais (mais? rs) Posicione-se, questione e escolha o “menos pior” porque não existe o melhor. Seja quente ou seja frio.

nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.

Apocalipse 3:15-16

 

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Um Chêro

Lidi

 

 

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